Primeira Luz: o todo é maior que a soma das partes

Este projeto tornou-me a mim, e penso que aos meus colegas, melhor fotógrafo. Estas palavras foram proferidas pelo Luís Afonso em 2013, aquando das filmagens do vídeo promocional da então “Fotonature”. A celebrar o 10º aniversário deste projeto e, à luz destas palavras, aproveito o momento para uma pequena reflexão sobre mim enquanto fotógrafo e formador neste projeto e do próprio projeto como um todo.

O Início

Para iniciar esta reflexão, impõe-se uma viagem no tempo, um regresso ao passado, por assim dizer, para trazer de volta a forma como tudo começou, ainda que consciente que por vezes a memória atraiçoa-me, prega-me partidas, que mais não seja pela distância que separam o agora do início. Afinal, já passam 10 anos desde aquele dia em que eu e o Pedro Bento entendemos criar a “Nature Workshops”. Sim, foi este o primeiro nome da nossa Primeira Luz. Algumas lembranças continuam tão presentes e revejo-as de forma tão cristalina que parece que ainda ontem as experienciei. Outras, talvez menos relevantes ou impactantes, são recordadas de forma menos clara, mais turva e dissipada pelos extensos corredores da memória. Certo é que, sempre que recordo aqueles dias já distantes, sou frequentemente assaltado por alguma saudade e insegurança. A forma inocente como tudo se iniciou, traz-me saudosismo. A paixão pela fotografia fazia-nos mover montanhas! Era a época em que sonhávamos e almejávamos algo grandioso como fotógrafos. O projeto seria o primeiro passo para algo com uma dimensão ainda maior. Naquela época, o céu era o limite, tal era a nossa ambição em fazer de tudo para que o projeto fosse um sucesso e uma referência.

Os diferentes nomes ao longo do projecto, com os respectivos logótipos oficiais

Qual segunda face de uma mesma moeda, relembro sempre a insegurança inicial que havia a cada workshop. As primeiras apresentações eram simplesmente hilariantes, tal o nervosismo que nos assolava a alma, afinal, era um mundo novo que se abria. Na época, e apesar da experiência e conhecimento fotográfico que possuíamos, nunca tínhamos estado em sala enquanto formadores, fosse em fotografia ou em outra área. Empenhámo-nos para encontrar a melhor forma de comunicação para chegar à nossa eclética plateia. Estudámos muito esta arte! Perante esta insegurança, nos nossos diálogos, não raras vezes encontrávamos algum conforto na crença de podermos ser efetivamente uma mais-valia neste exercício que é a formação. Penso, sem presunção alguma, que de facto éramos e contínuo a acreditar que somos uma mais-valia, ainda que o meu entendimento sobre esta matéria seja hoje substancialmente diferente daquele que tinha há 10 anos atrás. Mas sobre isso falaremos mais à frente. Verdade seja dita, essa insegurança nunca me largou até aos dias de hoje, apenas aprendi a lidar com ela a cada experiência fotográfica. Talvez agora se possa chamar sentido de responsabilidade, mais que insegurança. Afinal, sempre esteve presente um sentido de excelência no que fazemos.

Alguns dos workshops de 2008, ainda com o nome de Natureworkshops

O Fotógrafo

Este furacão, agora chamado Primeira Luz”, que em 2007 entrou na minha vida, teve uma influência determinante em mim enquanto fotógrafo. Abriu as portas da minha perceção fotográfica e alterou o meu entendimento e linguagem sobre a mesma. O espectro constante da “Paisagem Natural” e da “Grande Angular” foi-se desvanecendo, de forma proporcional ao crescimento do projeto. Experienciei várias fases de maturação, num processo sempre contínuo de aprendizagem e crescimento e tornei-me um fotógrafo diferente, fruto da partilha constante com as mais diferentes pessoas que tive o privilégio de conhecer e privar, e cuja experiência individual de cada um e como um todo me acrescentou também enquanto Ser Humano. Nos diálogos que mantenho durante as ações fotográficas, gosto sempre de vincar esta influência que os formandos vão deixando no meu percurso fotográfico. Muitos pensam que o digo por simpatia, no entanto, a simpatia faz parte do meu real discurso.

Divulgação de vários workshops em 2009, já com o nome de Fotonature

O Formador

Enquanto formador, nos dias de hoje, vejo e sinto a partilha sob uma perspetiva diferente. Hoje há uma consciência que não basta ensinar a controlar a luz. Sabe a pouco! Há sempre algo que vai muito além da abertura do diafragma, da velocidade de obturação e da sensibilidade. Não é suficiente mostrar onde está determinada opção no menu da câmara fotográfica ou indicar qual o melhor equipamento para ser adquirido. Os formandos, e de forma legítima, anseiam algo mais, na verdade, muito mais. A bem da verdade, não dão descanso à Primeira Luz. E que bom que isso é! Obrigam-nos a estar sempre “one step ahead”. O que é deveras gratificante. Nos dias de hoje, procuro, em consciência, incentivar os formandos a pensar e a questionar a sua própria fotografia, acreditando que assim são levados ao encontro do seu sentido crítico sobre a mesma. Entendo que o melhor caminho não é fazer “mais uma” fotografia igual às demais já existentes – ainda que possa parecer o caminho mais lógico, é também o mais fácil! Em sentido inverso, procuro estimular a criatividade de cada um, de modo a que imprimam o seu cunho pessoal em cada fotografia, levando-os a trilhar e consolidar o seu percurso enquanto fotógrafos. Naturalmente que é necessário entender e perceber o estado de maturidade de cada formando e quais as suas expectativas. Cada formando é único e com um nível de experiência e conhecimento diferenciado. O gosto pela arte de fotografar também difere, inclusivo dentro da mesma temática fotográfica. Saber desafiar, incentivar e inspirar são algumas das premissas obrigatórias para a satisfação e realização de quem nos procura. Na rua, na natureza, em estúdio, de dia ou de noite, seja qual for o cenário, há sempre algo a acrescentar que possa ser diferenciador. Se por um lado gerir todas estas variáveis constitui um grande desafio, não deixa de ser extremamente desafiante e motivador pertencer a um projeto desta natureza.

Um dos primeiros workshops na Serra da Estrela, ainda com Pedro Bento na equipa

Aqui a estatística é “como o algodão, não engana!”; e mostra que somos agradavelmente surpreendidos por formandos que nos revisitam, o que permite, entre outras coisas, observar a evolução de cada um. Sermos revisitados é bastante compensador, pois estes formandos voltam por entenderem que este investimento é uma mais-valia até por acrescentar valor ao que realizam. E voltarem a escolher a nossa equipa, é para nós uma honra e um privilégio enorme. Não escolhemos o caminho que cada um deve seguir, mas temos a obrigação de mostrar as várias opções. O dever de percorrer determinado percurso e a forma como o mesmo é feito, pertence ao formando.

O todo é maior do que a soma das partes

De forma inconsciente este tem sido o nosso lema ao longo destes 10 anos. É a força motriz que tem permitido superar os percalços nesta incursão pelo mundo da formação e das experiências fotográficas que, em alguns momentos, se revelou sinuosa. Desta aritmética a maior quota-parte de responsabilidade pela evolução e crescimento do projeto pertence a quem nos procura desde 2007. Eles são o motivo pelo qual se desenharam e se escrevem os acontecimentos destes últimos 10 anos. A nós,Primeira Luz, compete-nos ir ao encontro dos seus anseios e expectativas e, se hoje somos uma referência em experiências fotográficas em Portugal, deve-se em grande parte a quem nos acompanha neste trajeto. Se os elogios massajam o nosso ego e nos fazem perceber que estamos no caminho certo, as criticas também nos dão o entendimento necessário para perceber que este projeto está em constante mutação, pois os elogios e as criticas levam-nos a um cenário de mudança e de melhoria constante. Saber ouvir as pessoas que despendem de algum do seu tempo e investem algum do seu dinheiro para nos acompanhar, é mais uma das partes que torna o todo maior que a soma das suas partes constituintes.

Selfie da atual equipa, minutos após a inauguração da primeira exposição de fotografia, ainda com o nome Fotonature

O Sustentáculo

Este último parágrafo é dedicado aos meus colegas de equipa e ao sustentáculo que tornou possível estarmos a celebrar 10 anos de existência, a saber: a Amizade! Este é um dos sentimentos mais puros e bonitos e é ele que tem permitido cimentar e alavancar a essência do que é a Primeira Luz. Sem a Amizade, não haveria fórmulas de sucesso que resistissem aos desafios que fomos enfrentando e superando.

Site renovado em 2017 da atual Primeira Luz

Para finalizar, o futuro! Esse está já ali, ao virar da esquina e foi a pensar nele que surgiu um novo nome, uma nova imagem, com uma ambição renovada!

Texto e imagens por Nuno Luís

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